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Homenagem a Lucia Murat

 

Homenagem a Lucia Murat

“O cinema foi minha condição de sobrevivência.”

 
 
 
Em 2014 completam 50 anos do golpe que submeteu o Brasil a uma ditadura de mais de duas décadas. Num momento onde fica ainda mais explícito o debate em torno da memória desse período, o Femina faz uma merecida homenagem a Lucia Murat, cineasta que tem proporcionado ao público uma obra marcada pelas experiências de luta, repressão e resistência.
 
Lucia Murat cursava economia na época em que se engajou nas atividades do movimento estudantil de sua faculdade. Sua primeira prisão ocorreu em 1968, aos 17 anos, quando participava com cerca de mil estudantes do conhecido Congresso da UNE em Ibiúna. No final do mesmo ano, logo após o AI-5 entrar em vigor, passou a viver na clandestinidade. Permaneceu ligada à organização guerrilheira MR-8 até meados de 1971, quando foi novamente presa e, dessa vez, brutalmente torturada.
 
O cinema autoral de Lucia Murat testemunha mais que sua experiência individual: é uma reflexão sobre a experiência coletiva de uma geração e as consequências da repressão e do autoritarismo ditatorial para um país historicamente estruturado pela violência. Além disso, seja de maneira manifesta ou latente, oferece um olhar privilegiado para se pensar questões referentes às mulheres. Premiados nacional e internacionalmente, seus filmes têm mérito não apenas pelos temas tratados, mas notadamente pelas escolhas estéticas adotadas.   
 
Seu primeiro longa-metragem, Que bom te ver viva (1989), combina ficção e documentário para abordar a tortura durante a ditadura no Brasil, mostrando como suas vítimas sobreviveram e como encararam aquele período vinte anos depois. A parte documental conta com emocionantes depoimentos de oito mulheres que participaram da militância política e, ao serem presas pelo aparato repressivo, sofreram diferentes tipos de sevícias e torturas. Na parte ficcional, uma personagem anônima interpretada pela atriz Irene Ravache enuncia diversos monólogos que são intercalados aos testemunhos. Os acontecimentos relatados nos depoimentos são amplificados pelos monólogos, e a montagem alterna temas que trazem a participação política no espaço público com questões cotidianas, habitualmente associadas à vida privada. Por um lado, o filme nos ajuda a compreender a especificidade de gênero da prática da tortura, que foi realizada por instituições masculinas e patriarcais. Por outro lado, politiza assuntos considerados pessoais, expondo abertamente questões subjetivas, debatendo temas voltados à sexualidade e questionando outras formas de violência contra as mulheres.
 
 
Doces Poderes (1997), seu filme seguinte, encara com certa ironia a recente democracia brasileira ao expor as relações de poder em diferentes âmbitos. Suas personagens ambíguas nos fazem pensar sobre a ética num contexto no qual não se trocam mais experiências nem se debatem projetos revolucionários; onde apenas a mercadoria em sua forma mais desenvolvida, o dinheiro, decide os rumos que serão tomados. Trata-se de uma reflexão sobre certa geração que, num momento marcado pela derrota de suas utopias, busca articulações para manter-se nos espaços institucionais que encontra.
 
Em Brava Gente Brasileira (2000), uma sobreposição coloca em outro momento histórico a representação do que, metaforicamente, poderíamos considerar como a violência original brasileira: no Pantanal de 1778, soldados portugueses estupram um grupo de mulheres indígenas que tomavam banho num rio. Podemos aqui pensar na questão da violação do corpo feminino como arma de guerra que, no caso da formação de nosso país, serviu como um bárbaro instrumento tanto de invasão do território, como de sua manutenção. Quase dois Irmãos (2004) também aborda o encontro e o reencontro entre dois mundos e, de forma complexa, trabalha com as violências que permeiam as relações de classe, de etnia e de gênero. Sem usar uma forma cronológica e didática, Lucia Murat transita por diferentes décadas da vida de dois homens, Miguel e Jorge, um branco de classe média, o outro negro morador de um dos morros cariocas. Eles se conhecem na infância e se reencontram na prisão, quando ambos são submetidos ao cárcere pela Lei de Segurança Nacional. É num terceiro momento de reaproximação que fica nítida a impossibilidade de convivência entre esses dois mundos: o estupro da filha de Miguel, quase encerrando o longa, simboliza o fracasso da fraternidade buscada no título. 
 
A vida na favela e o problema do tráfico de drogas estão presentes também em Maré, Nossa História de Amor (2007), filme no qual Lucia Murat mais uma vez inova em sua escolha estética e opta por um gênero musical para seu roteiro shakespeariano. Já em Uma Longa Viagem (2011), ela fala em primeira pessoa para contar sua própria história e a de seus dois irmãos. Entram em cena temas como a luta armada, prisões, drogas, loucura. Novamente um jogo entre documentário e ficção, com a presença do ator Caio Blat interpretando um dos irmãos. No ano seguinte, a cineasta faz uma homenagem à amiga e também militante Vera Sílvia Magalhães no longa A Memória que me Contam (2012). O filme apresenta o intenso trabalho de memória feito por militantes que lutaram em uma organização armada contra a ditadura. Numa sala de espera de um hospital, o grupo aguarda notícias sobre Ana, também ex-guerrilheira, novamente internada em estado grave. Nas falas de homens e mulheres desse grupo, aparecem reflexões sobre seus projetos vencidos e sobre suas sensações de culpa e de traição. A denúncia dos horrores sofridos pela repressão está presente, e os limites da esquerda revolucionária entram em pauta, principalmente na exposição de certo conservadorismo em relação à sexualidade em geral e à homossexualidade/lesbianidade em particular.
 
Lucia Murat dirigiu ainda outros curtas e documentários. Sua obra, longe de buscar preencher arbitrariamente todas as lacunas da história e da experiência, opta por manifestar ambiguidades, perguntas e inquietações; abre espaço para a reflexão sobre corpos, afetos e sociedade sem hierarquizá-los. Desde seu primeiro longa, apresenta a pergunta: Como sobrevivemos?, destacando a dificuldade de sobreviver à prisão, à tortura, à derrota de projetos emancipatórios, à culpa por haver sobrevivido. Seu cinema não deixa de ser uma maneira pela qual elabora essas questões, que são individuais e coletivas, pessoais e políticas.
 
Danielle Tega
Doutoranda em Sociologia pela UNICAMP, autora do livro Mulheres em foco: construções cinematográficas brasileiras da participação política feminina (Ed. Cultura Acadêmica, 2010).
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