Homenagem / Homage – Zezé Motta

Zezé MottaComo todos os anos, o Femina presta tributo a uma personalidade feminina do Cinema Brasileiro. Este ano, temos a honra de prestar uma homenagem mais do que justa a uma das atrizes mais carismáticas e queridas do país. Zezé Motta estudou teatro no Tablado e começou sua carreira como atriz em 1967, estrelando a peça Roda-viva, de Chico Buarque, sob a direção de José Celso Martinez. Em seguida, atuouem Fígaro Fígaro, Arena conta Zumbi, A vida escrachada de Joana Martine e Baby Stompanato, Orfeu negro, Godspell, entre outras.

Além de diversos trabalhos para televisão, como novelas e minisséries, Zezé Motta também desenvolveu uma carreira como cantora a partir de 1971.

Mas, foi no cinema que Zezé Motta interpretou uma das personagens mais sedutoras do cinema brasileiro, a exuberante Xica da Silva, no filme homônimo de Cacá Diegues. O filme fez muito sucesso e a atuação de Zezé lhe rendeu vários prêmios de Melhor Atriz e o reconhecimento internacional.

Também participou de outros filmes como A rainha diaba, Vai trabalhar vagabundo, A força de Xangô, Tudo bem, Águia na cabeça, Quilombo, Jubiabá, Ouro Sangrento, Anjos da Noite, Sonhos de menina-moça, Natal da Portela, Prisioneiro do Rio, El mestiço, Dias melhores virão, Tieta, O testamento do Sr. Napumoceno, Orfeu, entre outros. Foram 39 filmes de diretores como Nelson Pereira dos Santos e Tizuka Yamasaki.

Considerada a primeira protagonista negra do cinema brasileiro, Zezé Motta também atua como militante pela ampliação do espaço dos negros na comunicação e é uma das fundadoras e Presidente de Honra do CIDAN – Centro Brasileiro de Informações e Documentação do Artista Negro.

Instituto de Cultura e Cidadania Femina


(RE)PRAZER

Zezé MottaEssa palavra não existe mas o sentimento que ela traz é legítimo. Há alguns anos tive o prazer de conhecer Zezé Motta para uma biografia da Coleção Aplauso – agora disponível na web.

Logo no primeiro dia, um sábado de sol carioca, deu-se pequeno contratempo. Fui religioso à hora marcada e ela profanamente não estava. A voz do interfone vazou, afônica: saiu. Como assim, saiu? Onde anda você, Zezé? Voltei pra casa frustrado e triste achando que o projeto babara. Ledo engano. Passadas algumas horas, vem ela num telefonema solar, pedindo desculpas e (re)marcando o encontro.

A partir daí, tudo foram flores, vinhos e teve até um vatapá ou bobó – algo com pimenta – para celebrar a inauguração da árvore de Natal da Lagoa Rodrigo de Freitas que ela, privilegiadamente, assiste da sacada do apê. De sobremesa fomos (eu e mais uns quarenta sortudos) brindados com um recital de câmara – ela na voz, Ricardo McCord nos teclados. O sol não adivinha: baby é magrelinha.

Revi filmes, reli entrevistas, conheci fotos. Um elenco a dedo: Marília Pera, André Valli, Carlinhos Prieto, Glauber Rocha, Marina Lima, Lucélia Santos, entre muitíssimos e muitíssimos parceiros de palco e vida – o que não deixa de ser um pleonasmo.

Entre uma gargalhada sonora e outra, vinha uma confissão. Quase sempre seguida de alguma delicadeza: “olha só, eu não te falei a respeito disso.” Tudo bem, Zezé. Toda xica da silva guarda seus mistérios. Fica tranquila que as entrelinhas dizem coisas na surdina.

Difícil a surdina com Zezé. Ela é uma gargalhada, um sol de junho, um dendê. E multifacetada, viu? Numa mesma manhã ela é capaz de fazer uma hora de pilates ou yoga ou capoeira, comprar peixe e rosas na feira, dar entrevista para rádio e ainda gargalhar ao telefone com uma amiga. Coisas de quem tem sete vidas.

Por isso invento o neologismo e afirmo que é um (re)prazer repensar e escrever sobre esses alegres dias.

Rodrigo Murat
Autor do livro “Zezé Motta – muito prazer”
16 de junho de 2012


 

As every year, Femina pays tribute to a female personality in Brazilian Cinema. This year we are honored to pay more than fair homage to one of the most charismatic and beloved actresses of the country. Zezé Motta studied theater at Tablado and began her career as an actress in 1967, starring in the play Roda-viva, by Chico Buarque, under the direction of José Celso Martinez. Then performed in Fígaro Fígaro, Arena conta Zumbi, A vida escrachada de Joana Martine e Baby Stompanato, Orfeu negro, Godspell, among others.

In addition to several works for television, such as novels and miniseries, Zezé Motta also developed a career as a singer in 1971.

But it was in cinema that Zezé Motta played one of the most alluring characters of Brazilian cinema, the exuberant Xica da Silva, in Cacá Diegues’ movie. The film was very successful and the her performance earned several awards for Best Actress and international recognition.

She has also participated in other films like The Devil Queen, Go to work vagabond, A força de Xangô, Everything´s Alright, Eagle at the Top, Quilombo, Jubiabá, Ouro Sangrento, Angels of the night, Best Wishes, Natal da Portela, Prisioneiro do Rio, El mestiço, Better Days Ahead, Tieta, Napomuceno´s Will Orfeu, among others. She performed in 39 films with directors like Nelson Pereira dos Santos and Tizuka Yamasaki.

Considered the first black protagonist in Brazilian cinema, Zezé Motta also participates as a militant for the expansion of black people in the area of communication. She is one of the founders and Honorary President of CIDAN – Brazilian Center for Information and Documentation of the Black Artist.

Instituto de Cultura e Cidadania Femina


(RE) PLEASURE

This word does not exist but the feeling that it brings is legitimate. Some years ago I had the pleasure of knowing Zezé Motta for a biography of the collection Aplauso – now available on the web.

On the very first day, a sunny Saturday in Rio, there was a little setback. I was religiously on time to our appointment, and profanely, she was not. A voice came out aphonic from the intercom: She’s gone out. How come has she gone out? Where have you been, Zezé? I came back home feeling frustrated and sad thinking that the project hasn’t worked out. Joyful mistake. A few hours later, she talks to me over a shinning phone call, apologizing herself and rescheduling the meeting.

Since then, everything was wonderful. Wine and we even had a bobó or vatapá, something with pepper, to celebrate the opening of the Christmas Tree in Rodrigo de Freitas lagoon, that she privileged, watches from the balcony of the apartment. For dessert we (me and about forty more lucky guys) offered a toast with a chamber recital, she singing and Ricardo McCord on the keyboards. The sun can not guess: baby is skinny.

I rewatched films, reread interviews, met photos. A cherry-pick cast: Marília Pera, Andrew Valli, Charlie Prieto, Glauber Rocha, Marina Lima, Lucélia Santos, among very many other partners from stage and life, which does not cease to be a pleonasm.

Between a sound laugh and another we could hear a confession. Almost always followed by some delicateness, “hey, Didn’t I told you about it?” Okay, Zezé. Every xica da silva has mysteries. Be cool, because between the lines people say things on the sly.

Difficult sordine with Zezé. She is a laugher, a June sun, a Brazilian dendê. And multifaceted, you see? In the same morning she is able to do an hour of pilates or yoga or capoeira, buy fish and roses in the street market, give interviews for the radio and still laugh on the phone with a friend. Things a person with seven lives can do.

Because of this I invent the neologism and I assert that it is a (re) pleasure to remember and write about those happy days.

Rodrigo Murat
Author of the book “Zezé Motta – muito prazer”
16 June 2012