HELENA IGNEZ por Ruy Gardnier

Quem visse Helena Ignez naquele começo de anos 60, em O Pátio, em A Grande Feira, em Assalto ao Trem Pagador ou em sua primeira capa da revista Cruzeiro dificilmente poderia acreditar numa transformação tão poderosa, numa explosão tão inesperada. Aquele corpo capaz dos mais doces gestos - e aqui pensamos sobretudo num de seus papéis mais marcantes, o de Mariana em O Padre e a Moça - revelara-se igualmente capaz das maiores balbúrdias e movimentos insanos nos filmes de um jovem visionário vindo de Joaçaba, Santa Catarina, e transformado em jovem crítico nas tribunas do Jornal da Tarde, de São Paulo. Esse novo talento, em seu primeiro longa-metragem, dá a Helena Ignez o papel da pistoleira Janete Jane. O nome do filme era O Bandido da Luz Vermelha e o jovem cineasta, Rogério Sganzerla.

Essa união, que resultou num casamento de vida inteira, é determinante na carreira artística de ambos. Existe uma sinergia profunda, uma sincronicidade profunda de modos de ser e de se expressar. Tudo o que o corpo-de-atriz Helena Ignez espera para se tornar depara-se com tudo que o gesto-de-diretor de Sganzerla gostaria de exprimir, e nasce daí uma parceria artística e existencial decisiva. As “bodas”, se é que podemos utilizar o termo, são as mil maravilhas de A Mulher de Todos, filme de molecagem, de transgressão cinematográfica (uma bricolagem de todos os gêneros de cinema popular, de mau gosto, filmes de B a Z) mas acima de tudo de transgressão completa de valores, colocando a “vampira sexual” Ângela Carne e Osso como centro da Ilha dos Prazeres, sedutora ávida, queridinha dos boçais. Ângela/Helena funciona como um vulcão, praguejando contra seus homens à medida que os ama, chutando, dançando, vivendo para a câmera com o claro intuito de fazer com que nos apaixonemos por ela. É uma das grandes presenças femininas da história do cinema, como Marlene Dietrich, Marilyn Monroe, Anna Karina, Claudia Cardinale.

Mas Helena Ignez não é só uma presença sedutora. Sobretudo a partir da década de 70 e dos filmes de produtora Belair - companhia da qual era sócia, em parceria com Julio Bressane e Sganzerla -, Helena passa a desempenhar uma atuação física, anti-psicológica,

fazendo de seu corpo um recipiente extraordinário das pesquisas da vanguarda da época e sua negação profunda do psicologismo e da interioridade dos personagens. Ângela Carne e Osso dá lugar às abstrações/aberrações magníficas de A Família do Barulho, Cuidado, Madame, Sem Essa Aranha, Copacabana mon amour e Os Monstros de Babaloo.

Hoje, Helena aparece mais nos palcos do teatro do que nas telas do cinema. Seu impressionante trabalho pôde mais recentemente ser visto em Os Sete Afluentes do Rio Ota (direção Monique Gardenberg), na peça Antiga de Dionísio Neto e na montagem de Savannah Bay, de Marguerite Duras, dirigida por Rogério Sganzerla. No cinema, uma última participação no filme de Sganzerla, O Signo do Caos, ainda a estrear. A homenagem do Femina, mais do que um justo tributo a esta que é uma das atrizes mais importantes do cinema brasileiro, é uma preciosa oportunidade de vê-la em ação, em seu verdadeiro elemento que é o palco. Uma chance a não se deixar passar.


Ruy Gardnier
é Jornalista, professor da Escola Darcy Ribeiro e
Editor da revista eletrônica Contracampo (www.contracampo.com.br)